quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Último post de 2010

Acho que em todas as culturas em que há uma data ou ritual que marque a passagem do tempo, o momento serve como reflexão sobre o tempo que passou. Tempo de avaliar o passado e planejar (o que for possível) o futuro. Para mim, 2010 não foi um ano tão diferente dos últimos, mas com algumas novidades que valeriam a pena serem relembradas.

Poderia falar aqui sobre o novo trabalho, onde tive experiências maravilhosas trabalhando com alunos adultos. Poderia falar da saudade que eu sinto dos pequenos. Poderia falar sobre amores e amigos verdadeiros, com quem compartilhei as dores e alegrias neste ano. Poderia falar sobre dúvidas e medos que tive do mundo e até de mim mesma. Poderia falar sobre os filmes que vi e os quais ainda não consegui assistir. Poderia falar da vontade que eu tive de mudar de emprego e de vida. Poderia falar da minha família, que fica cada dia mais louca, engraçada, bonita e distante de mim (por minha causa). Poderia falar da alegria, da angústia e das expectativas em relação ao mestrado. Poderia falar da esperança ainda mais estranha que tenho de que tudo melhore neste país. Mas quero mesmo é falar de encontros, ou melhor, de um reencontro, que me possibilitou tantos outros.

O encontro de que quero falar é do reencontro com a escrita, que me trouxe a este espaço e me possibilitou reencontrar e conhecer tantas pessoas bacanas, que também gostam de escrever e compartilhar seus desejos, fantasias, sonhos, medos, revoltas e uma infinitude de sentimentos que nos tocam enquanto gente. A escrita, que me traz muitas alegrias e alguns aborrecimentos, que me esconde e me revela, que me aproxima e me afasta, que me confunde e me esclarece. A escrita, que me faz ter ainda mais vontade de comer literatura, de descobrir outros modos e mundos, que me leva a conhecer um pouco mais daquilo que me inquieta, que não tem nome, mas que está dentro de mim. A escrita, que fez meus pensamentos pararem de circular dentro de mim e vir para um espaço público ser compartilhado, julgado, comentado, ignorado ou sentido. A escrita, que sempre me deixa na dúvida se tem ou não ífen, vírgulas, acentos, concordância, etc. Que sempre me diz que é preciso ler mais e escrever melhor , que às vezes me convence de que é melhor não publicar, mas nunca a parar de escrever. A escrita, que me é tão despretensiosa, que quer apenas me aliviar, me fazer mais leve (e mais livre). Que há muito estava ausente, que veio se reaproximando através de outros textos. Que chegou, que sempre deixa saudade e não quer partir.

Que em 2011 ela traga boas notícias, mas que não tenha vergonha de chorar, de se mostrar frágil e sensível. Que ela possa ser perdoada quando  não vier tão bonita quanto gostaria, mas que sempre esteja por aqui, e por aí também.

Feliz 2011!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal

Daqui a pouco, quando as compras cessarem, quando os carros pararem e os engarrafamentos acabarem, quando os presentes forem todos entregues, quando a fome cessar, quando a música parar, o corpo descansar e a pressa se for, que possamos enfim sentir o Natal. E que não seja apenas uma data, e que não seja apenas hoje, mas que seja nossa orientação para os dias que virão.
“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.”
E quando nossos espíritos se acalmarem, pensemos naqueles que não fizeram compras, que não dançaram, que não comeram, que não têm pressa... naqueles que não conseguimos amar. Que mais do que bom desejos, tenhamos boas ações.

Feliz Natal!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Gente (por Renato Russo)

Si sbaglia sai quasi continuamente, Sperando di
Non farsi mai troppo male ma quante volte si cade
La vita sai è un filo in equilibrio e prima o poi
Ci ritroviamo distanti davanti a un bivio.

Ed ogni giorno insieme per fare solo un metro in più
Ci vuole tutto il bene
Che riusciremo a trovare in ognuno di noi














Ma volte poi basta un sorriso solo a scogliere in noi
Anche un inverno di gelo e repartire da zero
Perché non c'è limite per nessuno che dentro sè
Abbia un amore sincero, solo un respiro, non siamo

Angeli in volo venuti dal cielo
Ma gente comune che ama davero
Gente che vuole un mondo più vero
La gente che incontri per strada in città

Prova e vedrai ci sarà sempre un mondo dentro di noi
Per poi riprendere il volo, verso il sereno, non siamo

Angeli in volo venuti dal cielo
Ma gente comune che ama davero
Gente che vuole un mondo più vero
La gente che insieme lo cambierà


(Composição: A. Valsiglio / Cheope / M. Marati )




sábado, 11 de dezembro de 2010

Tá acabando...

Há alguns anos a proximidade do ano findando me dá sempre a mesma sensação: ao mesmo tempo em que eu quero que o tempo passe logo, ansiosa pelo Ano Novo dentro de mim, eu também rezo para os dias terem no mínimo 40 horas, para que eu possa dar conta de todas as pendências que necessitam ser ajustadas antes do novo chegar.

Na verdade é tudo velho, tudo igual, apenas um desejo de recomeço, uma urgência em recarregar as baterias. O mesmo cansaço do ano passado, a mesma correria para entrega dos resultados das provas, celebrações mil e o espírito querendo acalmar. Mas em meio a todo esse tumulto sempre há tempo de se emocionar, de ouvir o não dito ao longo de todo ano, de parar por um segundo e agradecer, de olhar com cuidado. E então vai dando em mim um misto de cansaço e alegria, uma energia boa e estranha a me levantar da cama, mesmo que o corpo implore por mais algumas horas de sono.

Mas ainda assim prefiro os tempos de calmarias e amores de ano todo. Ainda quero que o ano termine logo...

Tô cansada!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Minha herança: uma flor

Achei você no meu jardim
Entristecido
Coração partido
Bichinho arredio

Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei


Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência
Sempre


A minha herança pra você
É uma flor com um sino, uma canção
Um sonho, nem uma arma ou uma pedra
Eu deixarei

A minha herança pra você
É o amor capaz de fazê-lo tranquilo
Pleno, reconhecendo o mundo
O que há em si


E hoje nos lembramos
Sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza estava juntando
Você e eu


Achei você no meu jardim...

(Vanessa da Mata)

É pra ver e ouvir com lágrimas nos olhos... Lindo demais!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Será que será hoje???!!!

Não sei se fui pé frio ou pé quente. No ano em que eu nasci o Fluminense foi campeão brasileiro, e a partir daí, bom... todos sabem. Time do meu amado pai, alegria dupla, meu time. Nunca fui fã de futebol, mas amava (e amo!) meu pai, o único desviante da família flamenguista. Eu achava bonito ele não ser igual a todo mundo, e não ser desses chatos que ficam enchendo a paciência dos outros por causa de time. Nem sequer tentou nos convencer, a mim e ao meu irmão, de torcer pelo seu time, trabalho feito pelo meu tio flamenguista fanático, que vestiu meu irmão recém nascido com o uniforme preto e vermelho e que o menino jamais tirou. Meu pai se manteve firme, sem se descabelar por futebol, batendo sua bolinha aos fins de semana e não respondendo às implicâncias dos flamenguistas. Me descobri torcedora do fluzão por solidariedade e admiração ao meu pai. Ah, e também por que eu acho a combinação de cores linda! Desde então eu gosto de assistir aos jogos do fluminense, ou pelo menos me enteresso pelos resultados.

No setor em que trabalho, eu e Vinícius somos os únicos tricolores. Eu nem falo muito de futebol, mas em solidariedade ao Vinícius tenho que me impor e emitir minhas opiniões. Eu acho um saco dia segunda feira no trabalho, principalmente porque os poucos homens que têm só sabem falar de futebol, uma verdadeira ressaca de domingo e atraso no que interessa. E eu lá dando moral pro Vini, tadinho, os tricolores são sempre solitários e precisam se unir nessas horas. Normalmente eu não entendo as matemáticas futebolescas, apenas concordo com o Vinícius e entro nas apostas pra não deixá-lo sozinho (e pra ele pagar, é claro!). Mas na segunda que vem nós dois seremos a maioria, porque hoje, pela primeira vez, vou ver meu time campeão! Mas como somos tricolores, não vamos ficar perturbando ninguém por conta disso, apenas estaremos mais felizes.

Como não me rendi ao assalto dos cambistas, assistirei ao jogo na casa do meu pai, e juntos, viveremos novamente a alegria de 26 anos atrás. A não ser que...




quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tempos Modernos

Eu vejo a vida melhor no futuro
Eu vejo isso por cima do muro
De hipocrisia que insiste em nos rodear
Eu vejo a vida mais farta e clara
Repleta de toda a satisfação
Que se tem direito
Do firmamento ao chão

Eu quero crer no amor numa boa
E que isso valha prá qualquer pessoa
Que realizar a força que tem uma paixão

Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade pra dizer mais sim do que não

Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
E não há tempo que volte amor
Vamos viver tudo o que há prá viver
Vamos nos permitir

(Lulu Santos)

Por Marisa

Verborrágica

Cansei de escrever. Pra falar a verdade tudo isso não é muito eu. Sempre fui mais de ler do que escrever. Gosto também de falar, aliás, mil vezes bater um bom papo do que ler. As palavras ditas voam com o tempo, podem até deixar marcas, mas não deixam provas, escrever é perigoso... Uma pena é não ter à disposição um Veríssimo pra tomar um chopp, uma Clarice pra tomar um vinho, um Machado pra tomar um café, um Caio pra fumar um cigarro e bater um lero de madrugada, pra rir na madrugada (há pouco descobri o quanto Caio também era um sujeito divertido!). Sem falar que eu realmente não gosto muito do que escrevo. Estou aqui muito mais pra bater papo do que pra escrever. Vocês podem estar pensando: “mas escrever e ler também são formas de conversas”. Tudo bem, concordo, mas eu leio o que leio porque não tenho como conversar “téte a téte” com os escritores, caso contrário não teria mais voz nem ouvidos de tanta conversa boa! Gosto mesmo é de falar, olhos no olhos, corpos falando, mãos agitadas, palavra sentida em cheio. Mamãe sempre dizia: “Julinha, sossega pra falar menina!”. Dona Josefa não percebia que ela também se mexia toda pra me dar bronca, falava mais com os quadris e com as mãos do que com a boca. Ah, que saudade da Dona Josefa!...

Na adolescência eu e Lili passávamos longas tardes conversando, e na hora de ir embora eu a levava até a esquina da sua casa e lá ficávamos mais uma hora contando nossos causos, e como o assunto nunca acabava, ela sempre voltava até a esquina da minha casa para tentar terminar o papo. Se despedir era difícil, a gente gostava muito de falar, e tudo era importante e urgente. Hoje em dia acho que não tem mais nada tão importante e urgente que não possa ser dito por e-mail. Eu e Lili quase não nos falamos mais, ela se tornou intelectual e só tem tempo pra ler...

Tá difícil encontrar um parceiro bom de papo. As pessoas se despedem pra conversar no MSN, e então todos querem falar, mas ninguém quer ouvir. Isso não pode ser conversa. É por essas e outras que eu acabo caindo na tentação dos livros, mas aí depois que eu leio, eu fico doida pra falar com alguém, pra ouvir alguém. Então eu escrevo pra conversar comigo mesma. E as conversas são tão sem pé nem cabeça que até me deixam em dúvida quanto a minha sanidade. Cada vez eu gosto menos do que escrevo, cada vez eu fico mais cansada de conversar comigo. Então vou lá e pego um livro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Do sonho

Ele disse que não gostava de sonhar. Sonhos não eram vantajosos em nada: se fosse ruim, era angustiante; se fosse bom era apenas um sonho. Até Drummond deu lá suas espetadas nessa nossa mania de sonhar, quando disse que nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Ora, se nossa dor advém dos sonhos irrealizados, o contrário também pode ser verdade. Talvez seja por isso que, em geral, as pessoas não deixam de sonhar, de acreditar nos outros, enfim, de sonhar com uma realidade mais bonita. Se sonhar às vezes dói, outras vezes é carinho, afago com gostinho de esperança. Drummond, esse lindo, também disse que fácil é sonhar todas as noites, difícil é lutar pelo sonho, e como! Para lutar é preciso antes acreditar no sonho, é preciso não ter medo dos pesadelos que possam surgir, e é preciso sobretudo, deixar de apenas sonhar e colocar a mão na massa! O moço estava enganado. Sonhar não pode ser apenas um sonho, sonhar mexe com a gente.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Princesa

(Por Eliane Brum)

Olha estes ingleses, que otários!, esbraveja minha amiga no balcão da padaria, onde tomamos nosso café da manhã. O que eles fizeram agora, forjaram armas químicas no Irã?, pergunto eu, abocanhando um pão na chapa. Não, este casamento do príncipe William com a tal da Kate Middleton. Em pleno século XXI e os britânicos param tudo para acompanhar o noivado do príncipe. Que bulchite!

Eu foco na foto do príncipe William estampada na capa do jornal de quarta, reparo que ele começa a ficar careca, divago um pouco sobre o vestido da Kate e… irrito minha amiga. Não acredito que você se interesse por este tipo de notícia! Uai, digo eu, em versão mineira, mas foi você que me mostrou! O bom de viver em São Paulo é que a gente pode ser qualquer coisa.

Minha amiga está revoltada. É sério, agora percebo, o noivado do príncipe a incomoda de verdade. Ela é a imagem da paulistana cool. Já lavou pratos em Londres, fez curso de cinema em Nova York, andou meditando na Índia muito antes da Elizabeth Gilbert e agora alterna o trabalho de produtora de moda numa revista modernete com um interminável mestrado sobre o feminino em Virginia Woolf e Katherine Mansfield. Tem uma vida amorosa mais movimentada do que consigo acompanhar e nosso café periódico tem em parte a função de me atualizar nesta área. Minha amiga também tem razoável senso de humor e, a esta altura, ela já deveria ter feito alguma piada com absorventes íntimos.

Você está realmente incomodada, digo eu, quase engasgando com o capuccino. Estou, claro que estou. Mas por que, criatura?, digo eu. Eu achava que o Príncipe Charles tinha feito um ótimo serviço ao acabar com a hipocrisia dos contos de fadas quando preferiu a mocreia em vez da princesa e agora isso. Mais um casamento do século. Você não achava que um príncipe tampax acabaria com os contos de fadas, achava?, tento eu. Achava, claro que eu achava, diz ela. A princesa do bem estragando a maquiagem na TV porque o príncipe consorte a chifrava com a irmã baranga da Cinderela e não deveria ser o suficiente? Não deveria ter ensinado alguma coisa àquele povo? Cristina! (Quando ela me chama pelo nome é porque as tropas estão se preparando para desembarcar na Normandia.) Eles estudam em bons colégios, comem bem, têm acesso a museus e bibliotecas, eles não têm o direito de ser tão estúpidos! Quase engasgo. E o que a inteligência e a boa alimentação têm a ver com isso?, protesto.

Situações como esta, na minha opinião, exigem medidas drásticas. Peço uma coxa-creme e uma coca normal. Hello!, agarro o rosto dela entre as mãos e descubro que tenho açúcar na ponta dos dedos. Nem você quer que a monarquia britânica acabe! E quando o casamento de contos de fadas entrar em crise como todo casamento, você pode imaginar que gozo o inglês médio terá? Você quer que eles percam tudo isso — e nós também? E nem é tão ruim assim, já que a tal da Kate não tem nem uma única hemaciazinha azul. Imagina, os pais têm uma empresa de lembrancinhas de aniversário. A mãe era aeromoça, o pai controlador de vôo. E agora ela vai caçar veados com o príncipe Phillip. Não é quase genial de tão prosaico?

Minha amiga faz uma cara esquisita. Meu deus, ela vai chorar. Uma lágrima faz uma curva no piercing do nariz. O que você tem? É TPM? Ela me dá um safanão. Ah, não, você é mulher, não tem direito de vir com esta história de TPM só porque estou chorando. Não, claro que não, digo eu. É perfeitamente normal você estar soluçando às nove horas da manhã no balcão da padaria por causa do casamento do Príncipe William. Do Príncipe William!!!

Agora ela se abraça em mim e baba toda minha camiseta da Branca de Neve. Me diz o que você tem, por favor. Eu tenho vergonha, ela quase assoa o nariz na gravata do cara ao lado. A padaria inteira olha para nós. Ainda bem que me lembrei de colocar óculos escuros. O Adão, que sempre nos serve, pergunta se queremos água com açúcar. Acho lindo ele perguntar isso. Imagina, água com açúcar. Quase choro por amor ao Adão.

Você precisa me dizer o que você tem, eu insisto. Eu estou preocupada. Até o taxista ali na porta está preocupado. Por favor! Ela me olha, fungando. Eu tenho vergonha. Você vai me crucificar. Você nem vai querer mais tomar café comigo. Nunca mais vai me convidar para a mostra de cinema. E vai vender o meu ingresso para o show do Paul McCartney. Juro que não. Eu te amo, você sabe. Pode me dizer qualquer coisa que eu vou escutar. Até a mosca que mora na torta de limão parou de zumbir para ouvir melhor.

Minha amiga diz, voz embargada: Eu acho que eu queria ser princesa. E desanda a soluçar mais uma vez. Você queria o quê?, eu realmente escuto mas não escuto. EU QUERIA SER PRINCESA! EU QUERIA SER A KATE MIDDLETON!! ENTENDE?! SE UMA PLEBEIA PODE SER PRINCESA, ERA EU QUE QUERIA TER AQUELA SAFIRA COM 14 DIAMANTES NO DEDO!!!

Eu não sabia bem o que fazer. O que eu digo agora? Duas garotas de uns 17 anos, cabelos escorridos, se aproximam e botam a mão no ombro da minha amiga: Tia, não chora. É normal. A gente também quer ser vampira e casar com o Robert Pattinson.

Adão!!!!! , eu grito. Mais uma coxa-creme e dois pastel! E um sapo, por favor, um sapo.


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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quem paga a conta?

É isso aí meu irmão

Você que nem sentou-se à mesa

Você que nunca comeu a sobremesa

Que sempre roeu o osso

Que sempre serviu

Que nunca pediu

É você mesmo

Que vai pagar a conta.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Monteiro Lobato no banco dos réus

Por Ediney Santana.

Monteiro Lobato foi preso por Getúlio Vargas, foram muitas as acusações: representava um perigo para a nação, suas histórias infantis acusadas de serem comunismo para crianças, ter criado a primeira empresa brasileira para exploração de petróleo. Getúlio, como grande ladrão de ideias boas e ruim que era, com base na ideia boa de Monteiro cismado em encontrar petróleo no país, criou a Petrobrás.
Muitos anos depois disso tudo são levados aos bancos dos réus Pedrinho, Narizinho e Dona Benta. Motivo? Racismo. Reinações de Narizinho é a prova do crime. Cadeia póstuma ao velho Monteiro Lobato, ele que era comunista, pode ser preso (mesmo estando morto) pelos comunas direitistas chefiados pelo Grande Irmão branco: Lula (leiam “1984” livro de George Orwell).
Em reinações de Narizinho Monteiro Lobato nos mostra o Brasil rural paulista, com seus coronéis e preconceitos, antes o país imaginava que coronelismo era coisa só do nordeste. Nas suas reinações no Sítio do Pica Pau Amarelo Narizinho e Pedrinho, duas crianças da cidade, se encantam com o mundo mágico apresentados a eles pelas histórias de Dona Benta e Tia Anastácia que criam todo um universo lúdico e apresenta parte da nossa cultura popular aos dois coraçãozinhos urbanos de Pedrinho e Narizinho.
O livro viaja entre o fantástico e a dura realidade de um país cheio de contradições. Em determinados momentos o narrador do livro descreve Tia Nastácia com o olhar que se tem e sempre se teve até aqui das empregadas domésticas, hoje tratadas pelo eufemismo de “secretárias do lar”.
Monteiro Lobato não foi preconceituoso ou racista, levou ele para o imaginário infantil temas difíceis com o preconceito social e de raça. Fazer um recorte em uma obra literária e apontá-la como racismo é que é um crime, quem faz isso deveria ser processado por manipulação cultural.
Querem agora colocar notas explicativas nos livros de Monteiro Lobato. O que deve-se cobrar dos governos é uma profunda reforma no ensino fundamental, na formação de professores que vão atuar no nas séries iniciais para que tenham condições de trabalharem com um livro tão complexo como Reinações de Narizinho, como diria Antoine de Saint-Exupéry, livro que só as crianças entendem.
Não conheço nenhuma criança negra ou branca que tenha se tornado racista por ter imaginado-se vivendo inúmeras aventuras com o Saci, aliás o Saci é o elemento mitológico do bem na história junto com as crianças luta contra a Cuca, uma espécie de mutação de jacaré e gente sempre pronta para pegar daqui e comer dali.
Por que ninguém fala do ensino público fundamental no país? Só falam de cotas para universidades ou Enems e Prós- unes? Porque tanto professores e alunos das escolas públicas do ensino fundamental não têm prestígio social e político, são esquecidos, tratados como se fossem invisíveis não importando se negros ou brancos.
Deveria-se, no caso da Bahia, cobrar publicamente do governador do estado explicações pelo extermínio em massa dos jovens negros dos bairros não centrais de Salvador, cobrar da justiça a prisão de agentes do turismo sexual que estupram e roubam a infância das nossas meninas negras transformadas em “mulatas” do prazer.
Deveria-se convidar alguns cantores de bandas de pagodes da Bahia para uma educação cultural e social por escreveram canções nas quais as mulheres negras são chamadas de: Cadelas, pistoleiras, prostitutas e tantas outras pérolas do cancioneiro soteropolitano. Aliás, no lugar de convidar deveria-se enquadrá-los na lei racial.
O Grande Irmão Lula vetou (através dos seus parlamentares) do estatuto da igualdade racial às cotas para acesso de pessoas negras as universidades públicas, no dia da “festa” da aprovação do estatuto, O Grande Irmão Lula discursou, foi aplaudido de pé. Zumbi Lamenta, sua Serra da Barriga continua lutando sozinha.
Os negros e negras sobreviventes nas calçadas de Salvador, os que estão sendo exterminados nas ruas de Maceió, estão vivendo nas crakolândia morrem pelas armas policialesca do estado são negros reais e ainda estão no meio do oceano em um criminoso navio negreiro chamado indiferença.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Seleção

Porque sempre foi assim. Eu nunca precisei dizer que não reajo bem sob pressão, sendo avaliada em cada gesto, em cada palavra bem ou mal dita. É normal a ansiedade tomar conta e estragar tudo, e eu dizer o que não queria dizer, e fazer cara de paisagem, e ao final, sentir uma vontade imensa de chorar. No fundo no fundo a gente sempre acaba mentindo um pouquinho sobre quem a gente é, porque a gente quer parecer ser mais merecedor do que os outros, a gente quer parecer mais nobre do que realmente somos. A peneira é cruel.

Ao fechar a porta o primeiro arrependimento foi ter mentido sobre um dos motivos que me levaram até aí. Embora não seja o mais importante pra mim, eu gosto sim de dinheiro (e não é nada nobre dizer isso) e no mundo que a gente vive ele é importante para que tenhamos uma vida um pouco mais sossegada . E eu acho que os professores devem buscar qualificação profissional e serem bem remunerados por isso. No entanto, mais do que dinheiro, na nossa profissão é preciso que se trabalhe com amor, não o amor romantizado que acha que a educação sozinha vai mudar o mundo, mas o amor real que não se desmantela diante das dificuldades, mas busca nelas a força para continuar existindo. Dinheiro não enche a alma, amor sim. E pra mim, sem amor, sem desejo, não há dinheiro no mundo que me faça ficar.

É difícil se manter sóbria diante do advogado do diabo tentando desconstruir tudo que você acredita, ou pensa que acredita, ou já nem sabe mais diante da confusão e de ficar mais de quatro horas aguardando no banco dos réus. Estou zonza... e desconfiada, e desacreditada.

Talvez a visão pessimista seja apenas uma estratégia de defesa para amaciar a queda. A gente finge que nem liga e, se não der certo, a consciência finge estar mais tranquila. “Deus sabe de tudo, se não for agora é porque não era mesmo pra ser.” Mas a verdade é que no fundo no fundo a gente vai chegando quase lá  porque acredita que pode dar certo. E a gente sofre por isso, a gente sofre...


sábado, 20 de novembro de 2010

Meu sonho não faz silêncio

Meu sonho jamais faz silêncio
E a ninguém caberá calá-lo
Trago-o como herança que me mantém desperto
Como esta cor não traduzida em versos
Pois se fariam necessários muitos e tantos versos

Meu sonho vara madrugadas
Som alto
De timbales que se arrebatam em cânticos
E trago-o como Olorum na crença
Que não me pune em pecados
Mas
Enche-me o peito grávido de esperanças
Como malungos marchando ao sol de novembro
Subindo as serras
Defesa e guerra

Meu sonho jamais faz silêncio
É a lança brilhante de Zumbi
A espada de Ogum
É o lê, o rumpi, é o rum
É a furia sem arreios
Terra farta dos anseios
Desacato, ato, sem freios

Vôo livre da águia que não cansa
Me faz erê, me faz criança

Meu sonho jamais faz silêncio
É um griot velho que me conta as lendas
De onde fisga tantas lembranças

E com ele invado chats, pages, sites
Na intimidade de corpos em dança
Perpetuando o gosto pelo correto
Meu sonho é pura herança
Rastro
Dos que plantaram, lutaram, construíram
O que não usufruo
Areia que moldada em vaso
Onde não nos cabe culpas
É lúcido ao sol dos trópicos, charqueado ao frio
É como um fio

Grita alto e bom som
Que o seio do amanhã nos pertence
Carregamos toda pressa










Meu sonho não faz silêncio
E não é apenas promessa

Planta em mim mesmo, na alma
Palmares, Palmares, Palmares
Pelo que de belo, pelo que de farto
Muitos Palmares


Carrega como o vento escritos
Versos de Jônatas, Oliveira, Colina , Semog e Cuti
Alimenta e nutre
Lembrando que esta cor me mantém desperto
E não tenho sustos

Sentinela que tange o eterno quissange
Entende a volúpia do calor que me abriga
Desfaz a mentira , destruindo a intriga

Meu sonho jamais faz silêncio
Como um Ilê Aiyê acordando a liberdade
Descobrindo amante ávido o sexo pulsante da existência
Desejo de navegar todos os mares
Comandando todas as fragatas, naves

E nos lança em um solo de Miles
Nos recria em um solo de Coltrane
Clássico como Marsalis, Jazz como Marsalis

E que nem tentem que faça silêncio
Pois voltaria gritando em um texto de Solynca
ás que completa a trinca
Torna-se um canto de Ella, Graça, Guiguio, Lecy
Gente negra, gente negra
Jamelão, mangueira
Brilho da mais brilhante estrela
Nunca se estanca, bravo se retraduz em sina

Só não lhe cabem
Crianças arrancadas da escola
Pela fome que rasga gargantas
E nos promete vê-las
Alimentadas todas, cultas
Meu sonho é uma negra criança
Que luta

Ergue Quilombos, aqui , ali
Em cada mente, em cada face
Impávidos como Palmares, impávidos Ilês
Em todos os lugares
 Meu sonho não faz silêncio
Porque feito de lida
Teimoso como esta cor
Para sempre será desperto e certo
Mais que vivo, é a própria vida.

LIMEIRA, José Carlos. In Arco Íris Negro

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sabia

Não precisavas vir
Com o coração fora do peito
Mostrando suas feridas
Remendos de amor
Eu já te sabia dor.


Não precisavas rasgar-te
Em versos no papel
Desfiando palavras
Difíceis e desertas
Eu já te sabia poeta.


Não precisavas aparecer
Em caminho de flores
Enfeitado de luz
Primaverando inverno
Eu já te sabia belo.


Não precisavas partir
Bebendo minhas lágrimas
Despindo
Nossas verdades
Eu já te sabia saudade.

Isa Lacerda.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Metrópole Qualquer

Prédios entre as nuvens
Pessoas entre os carros
Asfalto, cegueira, murmúrios.

Um homem vai depressa
Um cão vai depressa
Uma moto vai depressa.
Depressa... as janelas mal se olham.

Eta, vida besta meu Deus.

Isa Lacerda

Intertextualizando com o poema CIDADEZINHA QUALQUER ,de Drummond.

domingo, 14 de novembro de 2010

Livros

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.


Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:


Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.


(Caetano Veloso)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

(Des) Equilíbrio

O mundo pede equilíbrio. Alguns estudos dizem que o equilíbrio é um princípio universal, aplicável e necessário em qualquer circunstância. Para vivermos felizes precisaríamos ter uma alimentação equilibrada, relacionamentos equilibrados, um corpo equilibrado, uma cabeça equilibrada, uma família equilibrada, meio ambiente equilibrado, enfim, uma vida com tudo nos conformes. Difícil, não? Eu diria até impossível nesses tempos...

Em meio a tanta correria o equilíbrio anda se escondendo por aí. As pessoas procuram nos consultórios psiquiátricos, nas terapias alternativas, nas religiões, nas artes, na escrita, nos amigos, nos amores e até nas paixões! O que posso afirmar é que nesta última ninguém vai encontrar. Equilíbrio requer consciência, e paixão não tem, não a conhece. Paixão pode até ser sinônimo de desequilíbrio, tudo é em demasia.

E dá um trabalhão encontrar equilíbrio vivendo neste mundo louco, haja disposição! Mas quem quiser se dar ao trabalho pode procurá-lo entre a razão e a emoção, entre a depressão e o deboche, entre o salgado e o insosso, entre o inverno europeu e o verão latino, entre a obsessão e o desprezo, entre o workaholic e o vagabundo, entre o marombado e o sedentário, entre o perfeccionista e o desleixado, entre o valentão e o medroso, entre o apaixonado e o acomodado, entre a solidão e a multidão, entre a loucura e a apatia, entre o On the Road e a inércia, entre o cheio e o vazio... O equilíbrio está mais ou menos por ali, no meio. Viu?

Mas se não quiser ter trabalho, você também pode comprar na farmácia. Vem em gotinhas, tem pra todas as ocasiões e dizem que é natural.

Falando assim parece até fácil, mas não é não. Tem gente que vive uma vida inteira sem encontrá-lo. Tem gente que,assim como eu, encontra equilíbrio em algumas coisas e em outras não, ou talvez nunca o encontre. Eu não conheço ninguém que o tenha encontrado em todos os aspectos da vida, até aquela pessoa zen que a gente acha que vive uma vida em total harmonia, quando chegamos perto, vemos que também tem lá seus desequilíbrios. A verdade é que de perto ninguém é muito certo mesmo... Mas vamos combinar que a falta de equilíbrio também tem lá seus encantos, e se bem utilizada pode tornar a vida muito mais interessante.

Isa Lacerda.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Alma

Bastian balthazar Bux, herói de A história sem fim, viajava pelo reino da fantasia. A beleza era grande demais, e ele estava encantado. Mas beleza é perigosa. Precisamente por ser beleza. É na arena da beleza que Deus e o Diabo travam suas batalhas.

Olhando-se para o céu cheio de estrelas igualmente brilhantes, perde-se a noção de direção. E foi o que aconteceu - a beleza era tanta que Bastian acabou por se perder. Esqueceu-se de quem era. Perdeu sua própria imagem, a imagem que era o coração de sua alma. E começou então a vagar sem rumo.

Em seu vagar sem rumo, acabou por chegar a uma mina perdida numa planície gelada. Essa mina era guardada por Ior, o  mineiro cego, que explicou a Bastian o segredo dela:

Dentro dessa mina profunda e escura encontram-se guardados, sob a forma de transparências de mica, todos os sonhos da humanidade. Os seus sonhos também estão dentro dela. Se você quiser voltar a saber quem você é, terá que se lembrar dos sonhos que se esqueceu. Para isso será preciso descer até o fundo da mina e trabalhar sem nada ver, arrancando as placas de mica e trazendo-as para fora. No claro do dia, você poderá ver as imagens que não via no fundo escuro da mina. A maioria das imagens vai deixá-lo indiferente. Esses não são os seus sonhos. Mas, se por acaso acontecer de uma placa mica o comover, você poderá ter a certeza de que aquela imagem é o retrato da sua alma. Aquela imagem é o seu destino.

Foi isso que Bastian sentiu ao voltar de uma de suas incursões pelas profundezas escuras da mina. Tinha uma folha transparente de mica nas mãos. Olhava fixamente para ela.

Enquanto colocava a imagem sobre a neve, Bastian sentiu muita saudade... Era um sentimento que vinha de muito longe, como uma onda do mar que ao longe parece inofensiva, mas que, a medida que vai se aproximando, se tranforma numa parede de água da altura de uma casa, que arrasta tudo consigo. Bastian quase se afogou nessa onda de saudade, e teve de fazer um esforço para respirar. Seu coração lhe doía, era como se não fosse suficientemente grande para uma saudade tamanha...

Ele acabara de se encontrar com a imagem de sua alma.

***

Aquele rosto, placa de mica que o poeta via pela primeira vez - ele já o havia visto antes. Foi por isso que à surpresa seguiu-se a saudade. Ele se viu diante de um passado ao mesmo tempo desconhecido e conhecido. É por isso que, por vezes, a gente sente saudade sem saber de quê. Como se do passado viesse um perfume que toma conta do corpo - mas não conseguimos ver o lugar de onde ele vem, não sabemos o seu nome. Sentimos saudade do que não sabemos.

A saudade é o sentimento que mais se aproxima da paixão. Porque a paixão é o amor quando tocado pela morte. O amor tocado pela morte se inflama pelo medo da perda. E é assim que eu distinguiria o apaixonado do amoroso: o amoroso goza o seu amor com a leveza de uma criança, enquanto o apaixonado sofre a sua paixão por vivê-la sempre iluminada pela possibilidade de perda. Esse sentimento que surgiu tão de repente, não poderá desaparecer tão de repente quanto apareceu? Rilke estava apaixonado e deprimido quando escreveu: "Quem foi que assim nos fascinou para que tivéssemos esse olhar de despedida em tudo que fazemos?"

Por isso o amante sente saudades da mulher amada mesmo estando ela presente. Cassiano Ricardo perguntava:

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais presente?

O que explica a razão de a visão do rosto amado ser sempre acompanhada de uma certa tristeza. A pessoa, objeto da paixão, está sempre pronta para partir. A alma, lá no fundo, é saudade...


(Rubem Alves in: Cantos do Pássaro Encantado)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O perigo de uma única história

Todos os dias, em casa, na rua, no trabalho, lidamos com diferenças culturais, étnicas, sexuais, enfim, um grande leque de possibilidades cabíveis aos seres humanos. Contudo, é inegável que essas diferenças acabam se manifestando de maneira muito mais intensa nas escolas, onde a formação das identidades se dá mediante padrões pré-estabelecidos, formatados em modelos eurocêntricos, heterossexuais, segregando outras possibilidades de ser. Crescemos ouvindo uma única história sobre o Brasil, sobre a humanidade, sobre o mundo. E nessas histórias já estão embutidas as relações de poder que um povo tem sobre outros, que uma cultura tem sobre as outras.  E infelizmente, a maioria de nós, educadores, acabamos reproduzindo esses modelos que nos foram passados sem a necessária reflexão.

Hoje não é raro ouvir e ver manifestações em favor da diversidade, considerando que somos frutos de um mix cultural entre diferentes povos e raças, o que até somos. Mas o que importa não é apenas reconhecer que as diferenças existem, mas sim refletir sobre como podemos lidar com a diversidade sem instituí-la como fatores determinantes das desigualdades, continuando a naturalizar a supremacia dos brancos sobre os negros e indígenas, dos heterossexuais sobre os homossexuais, transexuais, etc., dos sulistas sobre os nordestinos, da ciência sobre o saber popular, dos ricos sobre os pobres e tantas outras hierarquias que acabam  limitando o acesso de grande parte da população de exercerem seus direitos, sobretudo o direito a liberdade de ser quem são.

Este vídeo, dividido em duas partes, é muito interessante para que possamos refletir, sobretudo nós, educadores, sobre que verdades estamos mostrando aos nossos alunos.

Abraços em todos e bons dias!

Isa Lacerda.




quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Inominável

Hoje eu teria um monte de coisas bonitas para escrever, mas estranhamente, quando a coisa é bonita demais eu não consigo encontrar palavras para descrevê-las. E deve ser exatamente por isso que eu acabo a chamando de "coisa". Sinto-me uma incompetente de primeira quando isso acontece, quando não consigo dar nome aos sentimentos, acontecimentos, alegrias. Talvez certas coisas sejam realmente inomináveis. Foi Saramago quem disse que há uma coisa que não tem nome, e que essa coisa é o que somos. Acho que é exatamente isso que eu sou hoje, um amontoado se sentimentos e desejos e alegrias inomináveis. Então não há porquê sofrer e burocratizar o que estou sentindo. Que eu seja, apenas!

Isa Lacerda.

domingo, 31 de outubro de 2010

Sutilmente

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe



E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti



Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti...


(Skank - Samuel Rosa / Nando Reis )

domingo, 24 de outubro de 2010

Eu árvore

Quando semente, fui plantada na esperança de vingar como a árvore de onde fui tirada. Dei galhos longos, porém não tão fortes quanto os dos meus ancestrais. No entanto, flexíveis o suficiente para não quebrar ao suportar o peso das chuvas e dos ventos. E belos o suficiente para inspirar o pouso e o canto dos passarinhos.

Gosto de ser árvore assim: leve, pequena e de raízes não tão fincadas ao chão, o que sempre me possibilitou mudar de lugar, e por vezes até voar. Saio por aí ornamentada com flores de primavera em meio às folhas verdes, ora me exibindo, ora dando sombra. Mas no outono procuro me recolher, preenchendo meu chão de secas folhas amarelas, fazendo colchão para quem tiver de chegar.

Além dos passarinhos, o que me deixa feliz é a visita dos beija-flores. São seus beijos delicados e passageiros que me fazem ficar colorida. Floreio para o beija-flor beijar-me. Pena que beija-flores só vêm na primavera...

Fiéis mesmo são esses passarinhos, que pousam em meus finos galhos, que cantam de inverno a verão, mesmo que eu mude de lugar, mesmo quando mudam as estações. É para eles que me faço florir agora...

Isa Lacerda.

domingo, 17 de outubro de 2010

Alucinação

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais...


Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...


Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...


Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...


Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...


Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...














(BELCHIOR)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Da leviandade do riso

Não tenho nada contra pessoas felizes, divertidas e engraçadas. Ao contrário, nada melhor que uma companhia bem humorada, alguém que te faça rir e esquecer as durezas da vida de vez em quando. Mas como diz a música de Frejat, rir de tudo é desespero.

Tenho percebido pessoas rindo absurdamente de qualquer coisa, por tudo e por nada. Outro dia estava no teatro com amigas, e ficamos constrangidas com o riso de algumas pessoas nos momentos menos apropriados. A atriz interpretava uma idosa revelando as dores de sua velhice, que vai muito além dos aspectos físicos que a idade impõe, quando de repente surge uma gargalhada solitária no meio da platéia, que é rapidamente seguida de outras. E várias vezes isso acontecia, me deixando até um pouco confusa: Será que não entendi a piada??? Não... Não era piada, não havia mesmo motivos pra risos. Não que as pessoas tenham que conter suas emoções o tempo todo, mas numa situação dessas fica clara a falta de noção do sujeito....

Parece que as pessoas têm saído de casa com um único propósito: se divertir e morrer de rir a qualquer custo. Ri-se de qualquer coisa: de piadas mal contadas às desgraças alheias, e até mesmo das próprias desgraças. Dizem que o riso pode ser até remédio pra alguns males, mas acho que também pode ser sintoma de total desespero.

Esses dias um amigo me disse que eu tenho “espírito de velha”, porque eu lhe contei que achei o stand-up comedy, que assisti no festival de teatro de Angra, uma grande porcaria, que não achei graça de nada e até dormi em meio a apresentação. Sinceramente, não acho mesmo a mínima graça em piadas homofóbicas, festival de palavrões e mau gosto. Pra mim foi um verdadeiro espetáculo de grosseria, e fico “embasbacada” de ver o quanto as pessoas valorizam este tipo de circo. Foi o gênero que teve os ingressos esgotados mais rápido! Minto, só perdeu pra “Doidas e Santas” interpretada por Cissa Guimarães, afinal, rir da desgraça real dos outros deve ter um sabor especial...

Como disse, não tenho nada contra a alegria, e até me considero uma pessoa divertida. Só não acho que pra ser divertida tenho que ficar gargalhando a respeito de tudo, como se o mundo fosse acabar e eu tivesse que morrer feliz (morte de aparências, como se a vida não bastasse). Felicidade e alegria podem também se manifestar de outras formas, que não o riso escancarado (o que também pode ser muito legítimo).

Penso que a vida é uma grande “mistureba” de felicidades, tristezas, alegrias, frustrações, conquistas, compaixão, fantasias, desesperos, loucuras, êxtases e centenas de sentimentos que possam existir, e tudo infinitamente finito. Então não dá pra ser só alegre e rir de tudo, assim como não dá pra ser só triste e lamentar por tudo. O que é sempre válido é a reflexão sobre o que vemos e ouvimos, ou então nós é que nos transformamos em palhaços.

Isa Lacerda.

Aproveito pra deixar aqui o poema que deve ter inspirado Frejat, desejando a todos os professores e amigos, um belo fim de semana e muitos sonhos alimentando a alma. Forte abraço em vocês!!!


"Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista
em rejuvenescer
E
que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar "

Este poema circula na internet com autoria de Victor hugo, porém o escritor Sergio Jockymann declara ser o autor. Se alguém souber ao certo quem o escreveu me avise pra eu dar os créditos certinho. Bj!


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Bom e Gostoso

(Por Karina dos Santos)

De manhãzinha, logo que você acorda… É bom tentar. É bom porque tira você da moleza da noite e dá aquela energia pra começar o dia com um sorriso daqueles. Pode ser um pouquinho antes de sair pro trabalho, no meio daquela correria… Meio apressadinho, talvez em cima da mesa do café da manhã ou encostado no sofá da sala. Aí também fica bom. Durante o trabalho, não é muito recomendável; mas se for na hora do almoço, depois de ter ido ao restaurante… É uma delícia! Em alguns dias, durante o expediente da tarde, também pode ser maravilhoso… Até mesmo no local de trabalho, se você der uma escapadinha pra uma sala vazia, um elevador parado ou mesmo no banheiro. Sempre com a porta fechada e aquele cuidado, claro, principalmente se o chefe for bravo e os colegas de trampo, invejosos. Ao chegar em casa… Também pode ser bom, antes, durante ou depois daquele banho. Agora, bom mesmo, gostoso, delicioso, é um pouco antes de dormir, depois do jantar. Devagarinho, com disposição… Aí não tem pra ninguém. É bom demais.

Tem gente que prefere e defende fazer sozinho. Tem quem faça a dois. E há mesmo quem faça a três, quatro ou mais. Normalmente, as pessoas têm ciúme e preferem fazer com um número de envolvidos reduzido ao máximo mesmo. Particularmente, não gosto de dividir o que é meu com ninguém mais. Mas não vamos condenar quem gosta… O fato é que todo mundo, de um jeito ou de outro, mais ou menos, querendo ou não, evitando ou não… Um dia, acaba fazendo. Tem quem prefira se envolver com um de confiança, conhecido, com quem tem um contato longo e duradouro, e é fiel a esse até o fim. Tem quem prove qualquer um, sem distinção. E tem quem seja um pouco seletivo, e experimente algo diferente aqui e ali, mas sempre volta para o de sempre. Gosto, inclusive nisso, não se discute. E muito menos se lamenta.


Claro, tem inúmeros jeitos e lugares de fazer. Sentado. Em pé, encostado perto da janela. Deitado. De lado. De frente. De costas. Na sala, no quarto, no banheiro, na cozinha, no quintal, dentro do carro. No cinema, no motel, no mato, na rede, em frente a TV, atrás do armário, no cantinho do escritório. Tem quem curta se exibir bastante, abertamente, matando todo mundo de vontade. Tem quem faz escondido. E quem faz discretamente. Tem quem consiga de graça. Tem quem pague caro. E tem quem ganhe de presente, como prova de amor ou carinho. Tem quem faça uma vez por mês, ou por ano, e quem fica anos sem fazer. E tem quem faça sempre, toda hora, todo dia.

Tem quem faça com carinho, devagarinho, sentindo cada momento. Tem quem faça rápido, com voracidade, e aquela vontade quase animalesca.

E na hora de escolher a parceria? Nossa, é uma luta. Sim, porque o jeitinho pode ser de todo jeito, tem pra todo gosto. Comprido, fino, grosso, mais achatado, mais arredondado, maior, menor, bonito, feio, limpo, sujo, cheiroso, sem graça, de boa e de má qualidade. E dá pra achar em qualquer lugar, desde a porta do cinema até a internet. E fica bom com sorvete, com bebida, com fruta, com leite condensado, com creme de morango, com doce de leite, com goiabada, com vinho, com leite gelado. Tem de consistências, cheiros, aparências, temperaturas, gostos e apresentações inúmeras! E, sempre que a gente escolhe só um, fica pensando como seria se tivesse escolhido aquele outro…

Tem quem demore bastante fazendo. Tem quem faça rapidinho, quase sem sentir o gosto. Pra alguns, o que importa é a quantidade. Pra outros, a qualidade. De qualquer jeito, o apelo está em todo lugar, a toda hora. Na TV, no rádio, na internet, na rua, nos outdoors. Quem faz, fica com cara de satisfeito. E, no fundo, quer sempre mais. Porque é bom! Bom e gostoso. Tem até quem diga que é um pecado capital, e quem diga que o exagero pode causar sérios problemas de saúde. Tem cientistas que explicam as milhares de reações químicas que são desencadeadas a partir desse simples ato, e dão aquela sensação imensa de prazer. A indústria criou milhares de produtos para estimular e incrementar o ato. E nós, o que podemos fazer? Sucumbir, claro.

Tem quem seja obscecado, tem quem goste muito, tem quem goste pouco, tem quem quase não lembra do assunto, tem quem faça por vício ou obrigação.

Eu penso nisso quase sempre, todo dia. E pelo menos uma vez por dia tenho que fazer. Me deixa calma, tranquila e com um sorriso de orelha a orelha.

O fato é que só quem gosta de comer chocolate sabe como é duro ser chocoólatra. Mas é bom e gostoso… Demais. Nham.

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