domingo, 20 de fevereiro de 2011

Quando o carnaval chegar

Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...
(CHICO BUARQUE)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Moça Tecelã



Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.


Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.


Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.



A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

COLASANTI, Marina. In: releituras.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Desligada

Ando meio desligada, e isso tem me parecido bom. Distraindo-se da vida, fica mais fácil viver. Amores com ares de verão, dores só no batuque do samba. Passada as horas necessárias para pagar as contas, me ocupo de formigas e poemas. Meu espírito anda de férias. Nada muito intenso, porque tudo muito intenso dói, até mesmo as alegrias. Mas também nada tão morno. Tudo na sua medida. A gente até vai cantando as dores e chorando as alegrias, mas sem fazer escândalo. Põe uma fantasia lúcida e sai no carnaval. Pode parecer meio chato falando assim, mas não. Viver na leveza das coisas pode ser bom. Sinais de maturidade? Sabe lá...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

AMIGOS


"A gente vive junto
A gente se dá bem
Não desejamos mal a quase ninguém.
A gente vai a luta
E conhece a dor
Consideramos justas
Todas as formas de amor"

Amo, amo, amo!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Um coração fraco

O que fazer quando a felicidade transborda? Como agir quando não se sabe merecedor de tantas benécies? Como agradecê-las? Porque a felicidade nos escolhe, dentre tantos?

Estas e outras questões me foram trazidas por Dostoievski na sensível peça “Um coração fraco”, brilhantemente interpretada por Caio Blat e Kadu Fávero. A história fala de amor, amizade, felicidade e loucura. Vássia, um rapaz pobre que trabalha em uma repartição pública, interpretado por Caio, se vê diante de um grande amor correspondido, sucesso profissional, além de poder contar com a sincera amizade de seu companheiro Arkaddi. Sua vida se torna tão feliz, tudo parece dar tão certo, que seu coração não suporta a própria felicidade. O moço não se acha merecedor de tanto e entra num processo de enlouquecimento que arranca lágrimas tanto da platéia quanto do próprio elenco.

Afinal, num mundo onde as pessoas almejam a felicidade gratuita, o que seria necessário para merecê-la? Durante o espetáculo eu pensava se realmente eu merecia aquela mão segurando a minha, companheira de tantos anos. Se realmente eu fiz algo merecedor de tão lindos amigos que a vida me trouxe; de uma família torta, mas tão igualmente bonita, e de um trabalho que me dignifica. Será que a vida é realmente um espelho a lhe devolver o que nela você projeta? Existe a sorte? Existem os eleitos à felicidade? Existe um jeito de agradecer?

Eu já me considero lindamente mimada por Deus, sobretudo por conseguir encontrar o equilíbrio de me manter sã diante do muito ou pouco que me cabe. Não sei se mereço tudo que tenho, ou se mereço mais. Talvez a raposa esteja certa: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Talvez eu também tenha cativado alguns.

Conheço algumas pessoas de coração de fraco, tanto para a tristeza quanto para as alegrias. Meu coração é fraco para as tristezas e tento fortalecê-lo, mas é forte para a felicidade. E além de forte, é pidão e quer sempre mais. Ele estará sempre aberto às alegrias e, transbordando ou não, quero sempre  dividi-las com todas essas pessoas especiais que fazem parte da minha vida. Talvez seja este meu agradecimento, sem obrigação alguma, mas por pura vontade de compartilhar beleza, e quando for necessário, também a tristeza.

Um forte abraço e bela semana a todos!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Caso de Amor

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe, deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada… Deixe, deixe, meu amor.

BARROS, Manoel de. In: Memórias Inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Os cães também sofrem...

Não diria que o melhor amigo do homem é o cão, mas sem dúvidas os cães são grandes amigos dos homens, íntegros e fieis aos seus donos como poucos de nós, humanos. Portanto não podemos esquecer-nos desses e outros animais que também são vítimas sobreviventes da tragédia do Rio, e estão sofrendo a perda de seus companheiros e abrigos. Meu cachorrinho entra em depressão quando eu passo alguns dias longe e o deixo sob os cuidados de minha mãe, que o adora e ambos se conhecem muito bem. Não posso imaginar a solidão que esses animais também possam estar sofrendo diante do caos.

Fiquei emocionada com a história do cão que passou dias ao lado do túmulo de sua dona, em Teresópolis. Lembrei-me do filme “Para sempre ao seu lado”, que conta a história real de um cão que passou 14 anos esperando seu dono, que estava morto, voltar, até a sua própria morte. Fidelidade difícil de encontrar...




Bjs!