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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Conta pra mim (Ana Jácomo)

Conta pra mim de onde a gente se conhece. De onde vem a sensação de que sempre esteve aqui, quando eu sei que não estava. Conta por que nada do que diz sobre você me parece novidade, como se eu estivesse lá, nos lugares que relembra, quando eu sei que não estive. Conta onde nasce essa familiaridade toda com os seus olhos. Onde nasce a facilidade para ouvir a música de cada um dos seus sorrisos. Onde nasce essa compreensão das coisas que revela quando cala. Conta de onde vem a intuição da sua existência tanto tempo antes de nos encontrarmos.

Conta pra mim de onde a gente se conhece. De onde vem o sentimento de que a sua história, absolutamente nova, é como um livro que releio aos poucos e, ao longo das páginas, apenas recordo trechos que esqueci. Conta de onde vem a sensação de que nos conhecemos muito mais do que imaginamos. De que ouvimos muito além do que dizemos. De que as palavras, às vezes, são até desnecessárias. Conta de onde vem essa vontade que parece tão antiga de que os pássaros cantem perto da sua janela quando cada manhã acorda. De onde vem essa prece que repito a cada noite, como se a fizesse desde sempre, para que todo dia seu possa dormir em paz.

Conta pra mim de onde a gente se conhece. De onde vem essa repentina admiração tão perene. De onde vem o sentimento de que nossas almas dialogavam muito antes dos nossos olhos se tocarem. Conta por que tudo o que é precioso no seu mundo me parece que já era também no meu. De onde vem esse bem-querer assim tão fácil, assim tão fluido, assim tão puro. Conta de onde vem essa certeza de que, de alguma maneira, a minha vida e a sua seguirão próximas, como eu sinto que nunca deixaram de estar.

Conta pra mim por que, por mais que a gente viva, o amor nos surpreende tanto toda vez que vem à tona.

***

Muito mais em http://anajacomo.blogspot.com/

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Bem ou malmequer?




Diz o senso-comum que amar é não esperar nada em troca. Pois eu duvido. Mais me parece que o amor é uma via de duas mãos. Aquele que ama deseja também receber amor. Nesse sentimento, todos querem ser correspondidos. Para a maior parte das pessoas, amar sozinho é insuficiente, inodoro, insosso e insípido.

Amar é desejar ser amado. O amor humano é algo bastante exigente e inseguro. O amante dificilmente tem a certeza de ser correspondido. Vive pedindo provas disso. Acontece que o amor é coisa que se experimenta, não se prova. Isto é, nenhuma prova de amor é suficiente. E isso não é privilégio do amor romântico, é assim com todas as relações.

A mãe quer que o filho, que é introvertido e seco, lhe diga o quanto a ama. O pai quer que aquele filho que tem dificuldade na escola, tire notas altas. O namorado quer que a namorada, recatada, faça estripulias no sexo. A namorada, que tem um par que é aversivo ao casamento, quer justamente isso dele: se casar. É, o amor pede justamente aquilo que o outro não pode dar.

Que graça tem ganhar beijos de um beijoqueiro? Receber flores do dono da floricultura? Ganhar poemas do poeta? Isso tudo é café pequeno. O amor é megalomaníaco e quer o impossível.

Porque o que o ser humano deseja é se sentir especial. Não se contenta em ser amado, quer mais, quer que o outro lhe mostre isso. Quer que o amado mova montanhas, transforme água em vinho.

Mas isso tudo é puro jogo que o sentimento e a razão fazem. Porque racionalmente, esse desejo de querer provas de amor não faz o menor sentido. Principalmente porque, se acontece de uma pessoa conseguir, efetivamente, provar o seu amor à outra pessoa, o jogo acaba. E o amado se queixa de se sentir “sufocado”. Diz que o outro “perdeu a graça”.

O amor está sempre escondendo algo, tem sempre algo de oculto. Porque aquele que ama faz as palavras serem insuficiente. Não sabe dizer ou explicar o amor ou a escolha pelo amante. O amor é uma paixão de desconhecimento. Por um lado não se sabe por que se ama, por outro lado não se sabe se é também amado.

Amar é pisar em ovos. Porque toda a graça está na dúvida. Ele(a) me ama, ele(a) não me ama, ele(a) me ama, ele não me ama. Bem-me-quer, mal-me-quer.


SUY, Ana. In: Significantes.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Casa (Ana Jácomo)


Não faz muito tempo, uma amiga me disse que não tem estrutura para sentir dor com a intensidade com que geralmente sinto quando a dor resolve dar as caras. Ao escutar o barulho da porta que anuncia a chegada da dita-cuja, que sabe jeitos de abrir todo tipo de tranca, ela foge, contou-me rindo da costumeira estratégia. Irmanada também pelas artimanhas que inventamos pelo caminho, às vezes apenas para sobreviver às ameaças dos nossos próprios dramas, eu lhe perguntei como poderia escapar se a dor, ardilosa, espaçosa, já estava dentro de casa.

“Ah, querida, mas tem a porta dos fundos!...”

Tem mesmo.

Rindo ali com ela, cada uma experimentando a própria encrenca emocional da vez, com o roteiro da vez, com o cenário da vez, com o elenco da vez, eu me lembrei de um monte de situações em que tentei fugir da mesma maneira, pela porta dos fundos. Eu me lembrei de vezes em que, de fato, fugi, toda prosa por acreditar ter conseguido. Eu me lembrei que fugir, às vezes, é necessário para recuperar o fôlego. Para restaurar a força. Para retomar o contato.

Não é que eu tenha estrutura para sentir dor. A propósito, eu acredito que bravura mesmo é ter estrutura para sentir felicidade. Na verdade, toda vez que as dores abissais me visitam e mergulho no oceano nada pacífico do seu breu é trabalhoso demais emergir para o lugar onde eu já consiga ver pelo menos um bocadinho de sol. Na verdade, o que eu acho é que não tenho escolha que não seja invocar a coragem para ficar comigo e tentar transformar o que precisa ser transformado, mesmo doendo à beça, mesmo tremendo de medo. Aprendi com o tempo das fugas que quando a dor atravessa a porta é inútil correr. Na verdade, o que eu tenho, agora, simplesmente por memória, é alguma lucidez e um bocado de preguiça.

Toda porta dos fundos nos leva para um lugar fora da gente. Uma hora, mais cedo ou mais tarde, querendo ou não querendo, fazendo birra, tentando desconversar, precisamos voltar pra casa se não quisermos passar o resto da vida longe de nós mesmos. E aí tanto faz por qual porta nós voltamos, se pela da frente, se pela dos fundos: a dor está lá, empoeirada que seja. Cheirando a mofo, quem sabe. Esta lá, com uma cara ou com outras, paciente, a nossa espera. E maior, bem maior, que fuga costuma ser fermento. Ela não vai embora só porque a gente fugiu. Quem dera pudesse.

Aprendi com o tempo das fugas e com o resultado de cada uma delas que podemos adiar o encontro do nosso olhar com os olhos perturbadores da dor, mas não tem jeito: em algum quarteirão da vida, eles vão se encontrar. Por isso, agora, toda vez que acontece, escolho ficar em casa. Escolho encarar de uma vez. Mergulho inteirinha, protegida com o escafandro da fé e do amor que me habitam.

Dor adiada é dor acumulada, apenas isso, é o que aprendi comigo. É o que aprendi com as dores. E a vida é tão mágica que, lá no fundo mais fundo do oceano nada pacífico de cada uma delas, lá no instante ou quase em que a pilha da lanterna acaba, a gente descobre um jeito novo, muito lindo, muito nosso, comovente muitas vezes, para conseguir emergir e transformar o que parecia impossível de transformação. E não é exagero dizer que geralmente emergimos mais corajosos. Mais ternos. Mais bondosos. Mais nós mesmos. Mais conscientes do que, de verdade, nos importa. Com mais urgência de nos sentirmos felizes na nossa própria pele.

No fundo mais fundo, não é raro nos sentirmos sozinhos. Estamos doendo tanto que, pra começo de conversa, a nossa própria presença nos falta, isto que é a mais perigosa solidão. Mas é um engano temporário, comum nos tempos em que os nossos olhos estão embaçados demais pelo medo: tanto faz o aparente e transitório tamanho da solidão, não estamos sozinhos nunca. E não estamos mesmo.

O amor, não importa de que forma se manifeste, encontrará maneiras para nos tirar lá desse lugar com recursos às vezes inimagináveis. Podemos estar tão cansados pelo breu que não conseguimos perceber num primeiro momento, nem num oitavo, nem num trigésimo, o convite da luz. Mas, de um jeito ou de outro, o amor que nos habita não cansará de tentar. Ele não foge pela porta dos fundos.

JÁCOMO, Ana. In: Cheiro de flor quando ri

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Princesa

(Por Eliane Brum)

Olha estes ingleses, que otários!, esbraveja minha amiga no balcão da padaria, onde tomamos nosso café da manhã. O que eles fizeram agora, forjaram armas químicas no Irã?, pergunto eu, abocanhando um pão na chapa. Não, este casamento do príncipe William com a tal da Kate Middleton. Em pleno século XXI e os britânicos param tudo para acompanhar o noivado do príncipe. Que bulchite!

Eu foco na foto do príncipe William estampada na capa do jornal de quarta, reparo que ele começa a ficar careca, divago um pouco sobre o vestido da Kate e… irrito minha amiga. Não acredito que você se interesse por este tipo de notícia! Uai, digo eu, em versão mineira, mas foi você que me mostrou! O bom de viver em São Paulo é que a gente pode ser qualquer coisa.

Minha amiga está revoltada. É sério, agora percebo, o noivado do príncipe a incomoda de verdade. Ela é a imagem da paulistana cool. Já lavou pratos em Londres, fez curso de cinema em Nova York, andou meditando na Índia muito antes da Elizabeth Gilbert e agora alterna o trabalho de produtora de moda numa revista modernete com um interminável mestrado sobre o feminino em Virginia Woolf e Katherine Mansfield. Tem uma vida amorosa mais movimentada do que consigo acompanhar e nosso café periódico tem em parte a função de me atualizar nesta área. Minha amiga também tem razoável senso de humor e, a esta altura, ela já deveria ter feito alguma piada com absorventes íntimos.

Você está realmente incomodada, digo eu, quase engasgando com o capuccino. Estou, claro que estou. Mas por que, criatura?, digo eu. Eu achava que o Príncipe Charles tinha feito um ótimo serviço ao acabar com a hipocrisia dos contos de fadas quando preferiu a mocreia em vez da princesa e agora isso. Mais um casamento do século. Você não achava que um príncipe tampax acabaria com os contos de fadas, achava?, tento eu. Achava, claro que eu achava, diz ela. A princesa do bem estragando a maquiagem na TV porque o príncipe consorte a chifrava com a irmã baranga da Cinderela e não deveria ser o suficiente? Não deveria ter ensinado alguma coisa àquele povo? Cristina! (Quando ela me chama pelo nome é porque as tropas estão se preparando para desembarcar na Normandia.) Eles estudam em bons colégios, comem bem, têm acesso a museus e bibliotecas, eles não têm o direito de ser tão estúpidos! Quase engasgo. E o que a inteligência e a boa alimentação têm a ver com isso?, protesto.

Situações como esta, na minha opinião, exigem medidas drásticas. Peço uma coxa-creme e uma coca normal. Hello!, agarro o rosto dela entre as mãos e descubro que tenho açúcar na ponta dos dedos. Nem você quer que a monarquia britânica acabe! E quando o casamento de contos de fadas entrar em crise como todo casamento, você pode imaginar que gozo o inglês médio terá? Você quer que eles percam tudo isso — e nós também? E nem é tão ruim assim, já que a tal da Kate não tem nem uma única hemaciazinha azul. Imagina, os pais têm uma empresa de lembrancinhas de aniversário. A mãe era aeromoça, o pai controlador de vôo. E agora ela vai caçar veados com o príncipe Phillip. Não é quase genial de tão prosaico?

Minha amiga faz uma cara esquisita. Meu deus, ela vai chorar. Uma lágrima faz uma curva no piercing do nariz. O que você tem? É TPM? Ela me dá um safanão. Ah, não, você é mulher, não tem direito de vir com esta história de TPM só porque estou chorando. Não, claro que não, digo eu. É perfeitamente normal você estar soluçando às nove horas da manhã no balcão da padaria por causa do casamento do Príncipe William. Do Príncipe William!!!

Agora ela se abraça em mim e baba toda minha camiseta da Branca de Neve. Me diz o que você tem, por favor. Eu tenho vergonha, ela quase assoa o nariz na gravata do cara ao lado. A padaria inteira olha para nós. Ainda bem que me lembrei de colocar óculos escuros. O Adão, que sempre nos serve, pergunta se queremos água com açúcar. Acho lindo ele perguntar isso. Imagina, água com açúcar. Quase choro por amor ao Adão.

Você precisa me dizer o que você tem, eu insisto. Eu estou preocupada. Até o taxista ali na porta está preocupado. Por favor! Ela me olha, fungando. Eu tenho vergonha. Você vai me crucificar. Você nem vai querer mais tomar café comigo. Nunca mais vai me convidar para a mostra de cinema. E vai vender o meu ingresso para o show do Paul McCartney. Juro que não. Eu te amo, você sabe. Pode me dizer qualquer coisa que eu vou escutar. Até a mosca que mora na torta de limão parou de zumbir para ouvir melhor.

Minha amiga diz, voz embargada: Eu acho que eu queria ser princesa. E desanda a soluçar mais uma vez. Você queria o quê?, eu realmente escuto mas não escuto. EU QUERIA SER PRINCESA! EU QUERIA SER A KATE MIDDLETON!! ENTENDE?! SE UMA PLEBEIA PODE SER PRINCESA, ERA EU QUE QUERIA TER AQUELA SAFIRA COM 14 DIAMANTES NO DEDO!!!

Eu não sabia bem o que fazer. O que eu digo agora? Duas garotas de uns 17 anos, cabelos escorridos, se aproximam e botam a mão no ombro da minha amiga: Tia, não chora. É normal. A gente também quer ser vampira e casar com o Robert Pattinson.

Adão!!!!! , eu grito. Mais uma coxa-creme e dois pastel! E um sapo, por favor, um sapo.


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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Monteiro Lobato no banco dos réus

Por Ediney Santana.

Monteiro Lobato foi preso por Getúlio Vargas, foram muitas as acusações: representava um perigo para a nação, suas histórias infantis acusadas de serem comunismo para crianças, ter criado a primeira empresa brasileira para exploração de petróleo. Getúlio, como grande ladrão de ideias boas e ruim que era, com base na ideia boa de Monteiro cismado em encontrar petróleo no país, criou a Petrobrás.
Muitos anos depois disso tudo são levados aos bancos dos réus Pedrinho, Narizinho e Dona Benta. Motivo? Racismo. Reinações de Narizinho é a prova do crime. Cadeia póstuma ao velho Monteiro Lobato, ele que era comunista, pode ser preso (mesmo estando morto) pelos comunas direitistas chefiados pelo Grande Irmão branco: Lula (leiam “1984” livro de George Orwell).
Em reinações de Narizinho Monteiro Lobato nos mostra o Brasil rural paulista, com seus coronéis e preconceitos, antes o país imaginava que coronelismo era coisa só do nordeste. Nas suas reinações no Sítio do Pica Pau Amarelo Narizinho e Pedrinho, duas crianças da cidade, se encantam com o mundo mágico apresentados a eles pelas histórias de Dona Benta e Tia Anastácia que criam todo um universo lúdico e apresenta parte da nossa cultura popular aos dois coraçãozinhos urbanos de Pedrinho e Narizinho.
O livro viaja entre o fantástico e a dura realidade de um país cheio de contradições. Em determinados momentos o narrador do livro descreve Tia Nastácia com o olhar que se tem e sempre se teve até aqui das empregadas domésticas, hoje tratadas pelo eufemismo de “secretárias do lar”.
Monteiro Lobato não foi preconceituoso ou racista, levou ele para o imaginário infantil temas difíceis com o preconceito social e de raça. Fazer um recorte em uma obra literária e apontá-la como racismo é que é um crime, quem faz isso deveria ser processado por manipulação cultural.
Querem agora colocar notas explicativas nos livros de Monteiro Lobato. O que deve-se cobrar dos governos é uma profunda reforma no ensino fundamental, na formação de professores que vão atuar no nas séries iniciais para que tenham condições de trabalharem com um livro tão complexo como Reinações de Narizinho, como diria Antoine de Saint-Exupéry, livro que só as crianças entendem.
Não conheço nenhuma criança negra ou branca que tenha se tornado racista por ter imaginado-se vivendo inúmeras aventuras com o Saci, aliás o Saci é o elemento mitológico do bem na história junto com as crianças luta contra a Cuca, uma espécie de mutação de jacaré e gente sempre pronta para pegar daqui e comer dali.
Por que ninguém fala do ensino público fundamental no país? Só falam de cotas para universidades ou Enems e Prós- unes? Porque tanto professores e alunos das escolas públicas do ensino fundamental não têm prestígio social e político, são esquecidos, tratados como se fossem invisíveis não importando se negros ou brancos.
Deveria-se, no caso da Bahia, cobrar publicamente do governador do estado explicações pelo extermínio em massa dos jovens negros dos bairros não centrais de Salvador, cobrar da justiça a prisão de agentes do turismo sexual que estupram e roubam a infância das nossas meninas negras transformadas em “mulatas” do prazer.
Deveria-se convidar alguns cantores de bandas de pagodes da Bahia para uma educação cultural e social por escreveram canções nas quais as mulheres negras são chamadas de: Cadelas, pistoleiras, prostitutas e tantas outras pérolas do cancioneiro soteropolitano. Aliás, no lugar de convidar deveria-se enquadrá-los na lei racial.
O Grande Irmão Lula vetou (através dos seus parlamentares) do estatuto da igualdade racial às cotas para acesso de pessoas negras as universidades públicas, no dia da “festa” da aprovação do estatuto, O Grande Irmão Lula discursou, foi aplaudido de pé. Zumbi Lamenta, sua Serra da Barriga continua lutando sozinha.
Os negros e negras sobreviventes nas calçadas de Salvador, os que estão sendo exterminados nas ruas de Maceió, estão vivendo nas crakolândia morrem pelas armas policialesca do estado são negros reais e ainda estão no meio do oceano em um criminoso navio negreiro chamado indiferença.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Bom e Gostoso

(Por Karina dos Santos)

De manhãzinha, logo que você acorda… É bom tentar. É bom porque tira você da moleza da noite e dá aquela energia pra começar o dia com um sorriso daqueles. Pode ser um pouquinho antes de sair pro trabalho, no meio daquela correria… Meio apressadinho, talvez em cima da mesa do café da manhã ou encostado no sofá da sala. Aí também fica bom. Durante o trabalho, não é muito recomendável; mas se for na hora do almoço, depois de ter ido ao restaurante… É uma delícia! Em alguns dias, durante o expediente da tarde, também pode ser maravilhoso… Até mesmo no local de trabalho, se você der uma escapadinha pra uma sala vazia, um elevador parado ou mesmo no banheiro. Sempre com a porta fechada e aquele cuidado, claro, principalmente se o chefe for bravo e os colegas de trampo, invejosos. Ao chegar em casa… Também pode ser bom, antes, durante ou depois daquele banho. Agora, bom mesmo, gostoso, delicioso, é um pouco antes de dormir, depois do jantar. Devagarinho, com disposição… Aí não tem pra ninguém. É bom demais.

Tem gente que prefere e defende fazer sozinho. Tem quem faça a dois. E há mesmo quem faça a três, quatro ou mais. Normalmente, as pessoas têm ciúme e preferem fazer com um número de envolvidos reduzido ao máximo mesmo. Particularmente, não gosto de dividir o que é meu com ninguém mais. Mas não vamos condenar quem gosta… O fato é que todo mundo, de um jeito ou de outro, mais ou menos, querendo ou não, evitando ou não… Um dia, acaba fazendo. Tem quem prefira se envolver com um de confiança, conhecido, com quem tem um contato longo e duradouro, e é fiel a esse até o fim. Tem quem prove qualquer um, sem distinção. E tem quem seja um pouco seletivo, e experimente algo diferente aqui e ali, mas sempre volta para o de sempre. Gosto, inclusive nisso, não se discute. E muito menos se lamenta.


Claro, tem inúmeros jeitos e lugares de fazer. Sentado. Em pé, encostado perto da janela. Deitado. De lado. De frente. De costas. Na sala, no quarto, no banheiro, na cozinha, no quintal, dentro do carro. No cinema, no motel, no mato, na rede, em frente a TV, atrás do armário, no cantinho do escritório. Tem quem curta se exibir bastante, abertamente, matando todo mundo de vontade. Tem quem faz escondido. E quem faz discretamente. Tem quem consiga de graça. Tem quem pague caro. E tem quem ganhe de presente, como prova de amor ou carinho. Tem quem faça uma vez por mês, ou por ano, e quem fica anos sem fazer. E tem quem faça sempre, toda hora, todo dia.

Tem quem faça com carinho, devagarinho, sentindo cada momento. Tem quem faça rápido, com voracidade, e aquela vontade quase animalesca.

E na hora de escolher a parceria? Nossa, é uma luta. Sim, porque o jeitinho pode ser de todo jeito, tem pra todo gosto. Comprido, fino, grosso, mais achatado, mais arredondado, maior, menor, bonito, feio, limpo, sujo, cheiroso, sem graça, de boa e de má qualidade. E dá pra achar em qualquer lugar, desde a porta do cinema até a internet. E fica bom com sorvete, com bebida, com fruta, com leite condensado, com creme de morango, com doce de leite, com goiabada, com vinho, com leite gelado. Tem de consistências, cheiros, aparências, temperaturas, gostos e apresentações inúmeras! E, sempre que a gente escolhe só um, fica pensando como seria se tivesse escolhido aquele outro…

Tem quem demore bastante fazendo. Tem quem faça rapidinho, quase sem sentir o gosto. Pra alguns, o que importa é a quantidade. Pra outros, a qualidade. De qualquer jeito, o apelo está em todo lugar, a toda hora. Na TV, no rádio, na internet, na rua, nos outdoors. Quem faz, fica com cara de satisfeito. E, no fundo, quer sempre mais. Porque é bom! Bom e gostoso. Tem até quem diga que é um pecado capital, e quem diga que o exagero pode causar sérios problemas de saúde. Tem cientistas que explicam as milhares de reações químicas que são desencadeadas a partir desse simples ato, e dão aquela sensação imensa de prazer. A indústria criou milhares de produtos para estimular e incrementar o ato. E nós, o que podemos fazer? Sucumbir, claro.

Tem quem seja obscecado, tem quem goste muito, tem quem goste pouco, tem quem quase não lembra do assunto, tem quem faça por vício ou obrigação.

Eu penso nisso quase sempre, todo dia. E pelo menos uma vez por dia tenho que fazer. Me deixa calma, tranquila e com um sorriso de orelha a orelha.

O fato é que só quem gosta de comer chocolate sabe como é duro ser chocoólatra. Mas é bom e gostoso… Demais. Nham.

Ver mais em mafaldacrescida.com.br

sexta-feira, 11 de junho de 2010

E os namorados casaram-se.

POTES DE REQUEIJÃO
(Por Fabrício Carpinejar)

Eu me dei conta que tudo é exercício para estar acompanhado.

Arrumar a cama, por exemplo.

Há gente que coloca o cobertor fincado internamente nas bordas do colchão, revelando índole possessiva e ciumenta.

Há gente que deixa o cobertor solto, mostrando desapego e sociabilidade.

Há gente que nem ajeita, denunciando solidão e independência.

Vejo um temperamento nas banalidades. Eu dobro o lençol como aba de envelope sobre o cobertor. Minha avó me alertou: “Cobertor é masculino, lençol é feminino”. Faz sentido: ambos estão casados, esperando nosso olhar (o que explica que a cama se encontra curiosamente aquecida algumas vezes).

Arrumo os travesseiros com delícia porque é um ânimo a mais para namorar. Caminho de um lado a outro, concentrado. Trocar a roupa de cama é sempre reinaugurar o quarto.

Transformo a disposição do tecido num bilhete de amor. Desde a minha infância. Sou uma palavra dentro, bordada.

A solidão foi meu laboratório. Minha dança com o espelho. Cada ato, cada gesto, cada atitude insignificante representava a preparação para receber alguém. Minha solidão é tão feminina: não estranho que Cínthya não tenha surgido dela.

Quando retirava o rótulo das cervejas na adolescência não passava pela minha cabeça que participava de um curso de noivo. Na época, aquela fixação das unhas na embalagem sugeria vadiagem. Aos colegas, cheirava como isolamento. Mas era uma antecipação, já cuidava para não me atrasar ao encontro.

As garrafas da boemia me ajudaram a descolar depois o papel dos potes de requeijão. As distrações são técnicas domésticas. Ninguém me bate na ciência de não deixar adesivo no vidro. Resta limpo, luminoso, um copo ileso na prateleira.

Os casais que moram juntos não entendem o quanto são felizes. Como é fácil selar a paz dormindo na mesma cama. Uma hora vão suspirar de ternura no meio da madrugada ou esticar o braço ao longo do outro corpo e recompor a distância.

Fácil, fácil, por isso a proximidade é desprezada.

Durante o namoro, é preciso avisar, marcar hora, entrar em acordo. A conversa segue um ritmo nervoso, um atentado violento ao pudor, que logo esbarra numa reclamação e suspeita.

Tanto que os namorados, ao se encontrarem, não têm direito de trabalhar ou se isolar em seus passatempos. É um insulto. Compreendido como um desinteresse. Um dos dois se enxergará preterido, seja pela televisão, seja pelo computador.

Os casados não aparecem, estão lá, com a chance permanente de comover.

O corredor é o pressentimento do abraço. Não há urgência em finalizar um assunto, nem a obrigação de ser amoroso. É bater papo com ela enquanto toma banho, é servir café para brindar os dentes, é arrumar suas coisas para ganhar tempo.

Os casados estão despertos ao cuidado. Será simples surpreender, basta reparar que acabou a granola dela e trazer um novo pacote do mercado. Com certeza, os grãos formarão um buquê na xícara.

No namoro, qualquer mimo é previsível, uma chantagem. No casamento, toda lembrança é inesperada, uma gentileza.

Não coloquei nada fora em mim porque poderia usar como enxoval no futuro.

*Ver mais em CARPINEJAR

terça-feira, 1 de junho de 2010

Pequeno Manual de Boas Maneiras ou Arte de Conviver

1. Amor
Amor se sente sem que se exija nada em troca. Nunca espere da pessoa amada a correspondência perfeita. Nunca espere que a pessoa que você ama o deseje, assim como você a deseja; o respeite, assim como você a respeita; o idolatre, assim como você a idolatra. Amores são graduais, não se sentem da mesma forma, e de qualquer modo são amor. É amor o que a pessoa diz que sente, se assim a pessoa concebe que seja. É amor o que você diz que sente, porque você conhece a si mesmo, sabe da intensidade de seus sentimentos, sabe da dor de buscar sempre um novo motivo, um novo caminho, um novo contexto para amar, perdoar, olhar com carinho, lutar pelo prazer de dar e receber, gozar e fazer gozar. Nunca pense que as pessoas sentem do mesmo jeito, sofrem do mesmo jeito, amam do mesmo jeito. Uns morrem por amor; outros matam por amor; outros ignoram, ficam indiferentes, e dizem que amam. É também amor: amor desintensificado. Mas o amor idealizado, amor que dói, que machuca, que nos faz perder o sono e o apetite, este é mais que amor: é sonho, é arte afetiva, é o próprio amor multiplicado ao extremo. É a fantasia de todos nós.

2. Interesse
É o interesse que nos mantém vivos, participativos, lutando, perseguindo. É porque há algum interesse que continuamos, percorremos a estrada. E acordamos em cada novo dia com a brutal necessidade de nos interessar por algo. Achar um novo interesse, uma nova razão para desafiar os obstáculos, superar os reveses, enfrentar o mal sempre presente. Mas cuidado! Não mostre em demasia seus interesses, caso eles não sejam passivamente aceitos. Finja quando o interesse não é aprovado socialmente. Minta se os interesses lhe podem causar algum incômodo profissional ou pessoal. Não que você deva livrar-se dos interesses: seria impossível. Você é humano e seus interesses continuarão a existir, por mais que agridam as pessoas. Mas a sociedade – todos sabem – é soberana, tem suas próprias regras, possui seu conjunto avaliativo, seus preceitos, seus critérios. E é por esses critérios que você será avaliado sempre. Analise seus interesses: persiga-os, busque-os, esconda-os se for o caso; mostre-os quando lhe for conveniente. E aprenda (por favor!) os malditos jogos da boa convivência, de acordo com o que se resolveu intitular, metaforicamente, delicadeza ou boa educação.

3. Respeito
Trata-se de um termo esvaziado semanticamente. Respeitar as pessoas significa às vezes temê-las, não ter coragem de enfrentá-las. Mas pode significar também enganá-las, mentir para elas, fingir que se concorda com elas, considerando que, em nosso mundo, discordar de alguém é ofendê-lo e a concordância entre dois universos distintos é quase sempre bastante difícil. Respeitar, desta forma, é manifestar a sua opinião se ela é favorável aos ouvintes; omiti-la se vai contra os ideais do auditório. Respeitar é inserir o discurso de acordo com as circunstâncias, observando se o contexto é ou não favorável ao que se vai dizer. Respeitar um companheiro é procurar não agredi-lo física ou verbalmente. Para tanto, faz-se mister conhecer esse companheiro: seus mistérios, suas angústias, seus medos secretos, seus antagonismos, suas neuroses, enfim, ter mentalmente uma listagem de todas as atitudes que podem magoá-lo. De posse dessa lista, a opção é a não agressão, a não violência: a fuga do constrangimento. Evitem-se os assuntos, se só interessam a você; eliminem-se os comentários, se põem em xeque a amizade de uma pessoa próxima e querida. Mas faça os comentários, se a suposta amizade não é importante para você. O desrespeito, neste caso, acaba sendo benéfico. Respeitar alguém, em síntese, é falar mal sempre por trás, nunca face-a-face. Na hipótese de você ter um coração mais nobre, causando-lhe certo desarranjo o palavrório, apenas concorde, faça seu assentimento, balance afirmativamente a cabeça. Depois tudo passa, você engolirá sua mediocridade e verá que as coisas ficarão melhores assim.

4. Paixão
Paixão é a chama sagrada que nos mantém vivos. Só se realiza obra proveitosa quando se está apaixonado... e a humanização acontece quando nos emocionamos profundamente e ficamos quentes, perdendo completamente o controle, perdendo as rédeas, expondo-nos. A paixão vence o cansaço, a doença, a fragilidade física. Quando é muito intensa a paixão precisamos apenas de um último fôlego, um último sopro de vida, alguns movimentos dolorosos a mais, para o encontro com o êxtase, o ápice do prazer – a agonia da complementação amorosa, passional (passionis). Mas é preciso cautela. Apenas em momentos muito raros se acolhe a paixão. Apenas para alguns privilegiados se admite a paixão. E quem ousar insistir, quem manifestar regularmente, publicamente, suas paixões... será considerado pecaminoso, imoral, pérfido, indecente. Portanto, sonhemos com a paixão, apaixonemo-nos, mas resguardemos nossos sentimentos. Foi-nos dado um corpo, mas não devemos sujá-lo excessivamente com outros corpos. Sentemo-nos em nossas poltronas, em nossos sofás. Continuemos a ver as novelas televisivas. Continuemos as exclamações: “Nossa! O moço tá peladinho!” “Caramba, olha a bunda da garota! Tá toda de fora!” Esqueçamos tudo isso e voltemos à nossa vida sem graça, cansada, masturbada e aborrecida. Continuemos a descontar em nossos filhos nossas frustrações, nosso tesão não correspondido. Vamos dormir.

5. Sinceridade
A sinceridade inviabilizaria completamente a existência humana. Você já pensou na hipótese de dizer tudo que pensa para as pessoas? Seria logicamente o caos e você não ficaria vivo para contar a história. Lembrando-se da linda mulher do seu amigo, você lhe confessaria o desejo de ir para a cama com ela? Você confessaria ao seu patrão que o nariz dele é um dos mais feios do planeta? Você revelaria a sua esposa quantas vezes quis fazer sexo com outras mulheres (incluindo parentes próximos)? Admitiria para o seu marido que inúmeras vezes desejou que outro, qualquer um, menos ele, estivesse em cima de você num momento de cópula? Confessaria para aquela sua amiga desinteressante que já não aguenta mais dois minutos de conversa com ela? Não, não se pode dizer nada disso. A canção popular diz que é preciso saber viver. E eu acrescento que saber viver é, em grande parte, saber mentir, saber dizer as coisas certas, na hora certa, para a pessoa certa, de acordo com os ganhos que se pretenda obter. De tudo isso se conclui, evidentemente, que a mentira é uma virtude. E se o diabo é o pai da mentira, somos todos seus filhos, e não filhos de Deus, como insistimos em proclamar nos quatro cantos do mundo. Caros amigos, que é a verdade senão um aglomerado ideológico no qual fingimos acreditar em nome de nossas conveniências? Ora, todos sabemos que a verdade só deve ser dita se não houver consequências negativas. E não é à toa que, para o adágio popular, a verdade dói. Dói principalmente para quem a proferiu. Ai daquele que insistir na verdade! Será condenado ao isolamento, ao desprezo público, ao sarcasmo, ao enxovalho. Insistindo ainda, não restará outra alternativa senão as grades de um hospício fétido. Bem-aventurados os que dominam a arte da mentira!

6. Vida
Tu sabes como é amarga a vida, como é doce a vida... Sabes à farta da Aquarela de Toquinho: da astronave que nos convida “a rir ou chorar”. Sabes também que nossos momentos são mesmo soberanos e que é inútil lutar contra eles. Vivamos, portanto. Estás triste, chora. Se alegre, sorri. Se a alegria é de fato muito intensa, pula, mostra! Porém se é implacavelmente grande a tristeza, consola-te: há ombros, há pessoas, há estrelas, existem canções, cada qual mais bela que a outra. Enganas-te quando pensas que não há pessoas de coração iluminado, que vieram à Terra para torná-la suportável. Há. Existem essas pessoas cuja alma é tão bonita que nos ofusca a vista e nos envergonha, por sermos tão feios. Procura-as no momento de dor. E elas te acariciarão, te tomarão em seus braços, te beijarão, te apertarão... e tu te tornarás novamente nobre, vivo novamente: preparado para o turbilhão de sensações que és, que somos. A vida é isto: sentir, perceber que nascemos para compartilhar, para honrar nossa essência original de ter cuidado, cuidar, cuidar de nossos entes queridos, cuidar de nós mesmos, cuidar de nossos amigos, de nossos amores, cuidar da Terra, dando-nos (a todos! a discriminação alimenta o inferno!) direito a um futuro, a um sorriso de encanto nos lábios... alguma esperança.

Fernando Vieira Peixoto Filho

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os moços

"Dificilmente um homem consegue corresponder à expectativa de uma mulher, mas vê-los tentar é comovente. Alguns mandam flores, reservam quarto em hotéizinhos secretos, surpreendem com presentes, passagens aéreas, convites inusitados. São inteligentes, charmosos, ousados, corajosos, batalhadores. Disputam nosso amor como se estivessem numa guerra, e pra quê? Tudo o que recebem em troca é uma mulher que não pára de olhar pela janela, suspirando por algo que nem ela sabe direito o que é.

Perdoem esse nosso desvio cultural, rapazes. Nenhuma mulher se sente amada o suficiente."

Martha Medeiros

Linda Rosa, de Gugu Peixoto e Luis Kiari, da Banda Playmobille.


"E pobre desses rapazes que tentam lhe fazer feliz..."