quinta-feira, 7 de julho de 2011

Lavando a alma

Recostada à parede de azulejo do box, deixava a água do chuveiro queimar seu corpo. O calor intenso das gotas que deslizavam sobre sua pele misturava-se às lágrimas. Absorta, seu olhar estava fixo para o ralo do box, onde escorria tudo que saía de sua pele e de seus olhos. Já nem mais sabia por que chorava, talvez fosse apenas o cansaço, cujo banho solitário tratava de cuidar.

Enquanto desanuviava o espírito, todo o banheiro se anuviava de branco vapor. Sua pele já ardia. Gostava daquela sensação de corpo se descolando do corpo. 

De repente, uma pequena lacraia vence o fluxo da água e surge do ralo. Ao invés de histeria ao vir o bicho peçonhento, nem se moveu. Continuou recostada à parede, certa de que a força da água se encarregaria de levar o bicho de volta ao seu lugar. 

Lembrou-se da menina chinesa, cujo único toque de carinho fora sentido através do pouso de uma mosca sobre seu corpo. Ao perceber a lacraia se aproximando fez um leve movimento com a perna, empurrando-a junto com a água para o ralo, que foi fechado com o dedo do seu pé. 


A água continuava a cair sobre seu corpo vermelho. Decidiu abrir mais o chuveiro, sentir a água mais fria... Pôs-se  de pé, corpo ereto. Antes que toda a água da piscina que se formara transbordasse por todo o banheiro, abriu o ralo e permitiu que tudo fosse abaixo de uma só vez. Centrou o rosto no jato do chuveiro, desligou-o depois de alguns segundos e envolveu-se na toalha macia. Deitou-se na cama e dormiu um sono leve e longo, como há muito não fazia.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Casa (Ana Jácomo)


Não faz muito tempo, uma amiga me disse que não tem estrutura para sentir dor com a intensidade com que geralmente sinto quando a dor resolve dar as caras. Ao escutar o barulho da porta que anuncia a chegada da dita-cuja, que sabe jeitos de abrir todo tipo de tranca, ela foge, contou-me rindo da costumeira estratégia. Irmanada também pelas artimanhas que inventamos pelo caminho, às vezes apenas para sobreviver às ameaças dos nossos próprios dramas, eu lhe perguntei como poderia escapar se a dor, ardilosa, espaçosa, já estava dentro de casa.

“Ah, querida, mas tem a porta dos fundos!...”

Tem mesmo.

Rindo ali com ela, cada uma experimentando a própria encrenca emocional da vez, com o roteiro da vez, com o cenário da vez, com o elenco da vez, eu me lembrei de um monte de situações em que tentei fugir da mesma maneira, pela porta dos fundos. Eu me lembrei de vezes em que, de fato, fugi, toda prosa por acreditar ter conseguido. Eu me lembrei que fugir, às vezes, é necessário para recuperar o fôlego. Para restaurar a força. Para retomar o contato.

Não é que eu tenha estrutura para sentir dor. A propósito, eu acredito que bravura mesmo é ter estrutura para sentir felicidade. Na verdade, toda vez que as dores abissais me visitam e mergulho no oceano nada pacífico do seu breu é trabalhoso demais emergir para o lugar onde eu já consiga ver pelo menos um bocadinho de sol. Na verdade, o que eu acho é que não tenho escolha que não seja invocar a coragem para ficar comigo e tentar transformar o que precisa ser transformado, mesmo doendo à beça, mesmo tremendo de medo. Aprendi com o tempo das fugas que quando a dor atravessa a porta é inútil correr. Na verdade, o que eu tenho, agora, simplesmente por memória, é alguma lucidez e um bocado de preguiça.

Toda porta dos fundos nos leva para um lugar fora da gente. Uma hora, mais cedo ou mais tarde, querendo ou não querendo, fazendo birra, tentando desconversar, precisamos voltar pra casa se não quisermos passar o resto da vida longe de nós mesmos. E aí tanto faz por qual porta nós voltamos, se pela da frente, se pela dos fundos: a dor está lá, empoeirada que seja. Cheirando a mofo, quem sabe. Esta lá, com uma cara ou com outras, paciente, a nossa espera. E maior, bem maior, que fuga costuma ser fermento. Ela não vai embora só porque a gente fugiu. Quem dera pudesse.

Aprendi com o tempo das fugas e com o resultado de cada uma delas que podemos adiar o encontro do nosso olhar com os olhos perturbadores da dor, mas não tem jeito: em algum quarteirão da vida, eles vão se encontrar. Por isso, agora, toda vez que acontece, escolho ficar em casa. Escolho encarar de uma vez. Mergulho inteirinha, protegida com o escafandro da fé e do amor que me habitam.

Dor adiada é dor acumulada, apenas isso, é o que aprendi comigo. É o que aprendi com as dores. E a vida é tão mágica que, lá no fundo mais fundo do oceano nada pacífico de cada uma delas, lá no instante ou quase em que a pilha da lanterna acaba, a gente descobre um jeito novo, muito lindo, muito nosso, comovente muitas vezes, para conseguir emergir e transformar o que parecia impossível de transformação. E não é exagero dizer que geralmente emergimos mais corajosos. Mais ternos. Mais bondosos. Mais nós mesmos. Mais conscientes do que, de verdade, nos importa. Com mais urgência de nos sentirmos felizes na nossa própria pele.

No fundo mais fundo, não é raro nos sentirmos sozinhos. Estamos doendo tanto que, pra começo de conversa, a nossa própria presença nos falta, isto que é a mais perigosa solidão. Mas é um engano temporário, comum nos tempos em que os nossos olhos estão embaçados demais pelo medo: tanto faz o aparente e transitório tamanho da solidão, não estamos sozinhos nunca. E não estamos mesmo.

O amor, não importa de que forma se manifeste, encontrará maneiras para nos tirar lá desse lugar com recursos às vezes inimagináveis. Podemos estar tão cansados pelo breu que não conseguimos perceber num primeiro momento, nem num oitavo, nem num trigésimo, o convite da luz. Mas, de um jeito ou de outro, o amor que nos habita não cansará de tentar. Ele não foge pela porta dos fundos.

JÁCOMO, Ana. In: Cheiro de flor quando ri

terça-feira, 28 de junho de 2011

Querido diário*

Hoje, ao ouvir-te cantando teu “Querido Diário”, deu-me uma vontade grande de vir aqui e escrever no meu diário, querido também. O tempo afastada foi apenas por não saber muito o que dizer, talvez por que está sendo um tanto difícil dizer coisas bonitas, que é o que eu gostaria de poder fazer sempre.

Ah, Chico!... Meus amigos também me dão “bom dia” cheios de carinho, mas acho que eles não têm pena de mim não, nem deles; eles não sabem que sou sozinha, que todos somos. E nos últimos dias minha cidade também tem andado na contramão, e eu, sem saber o que fazer, também tenho pensado em ter uma religião, porque quando o bicho pega a gente pensa logo em se fiar com Deus e todos os santos vez por todas. Será que religião resolve, Chico?

Fé. Acho que a fé pode ajudar... E amor também. Isso me sobra.

Mas Chico, eu quero mesmo é ser macio que nem você, e não quebrar, por mais forte que seja a pancada do porrete.



*Música do novo CD de Chico Buarque, que será lançado em julho. Para ouví-la clique aqui.

 "Hoje topei com alguns
conhecidos meus

Me dão bom-dia [bom-dia], cheios de carinho;

dizem para eu ter muita luz
e ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho


Hoje a cidade acordou
toda em contramão

Homens com raiva,

buzinas, sirenes, estardalhaço


De volta à casa, na rua
recolhi um cão
que, de hora em hora, me arranca um pedaço

 
Hoje pensei em ter religião
De alguma ovelha, talvez,
fazer sacrifício
Por uma estátua ter adoração

Amar uma mulher sem orifício



Hoje, afinal, conheci o amor
E era o amor, uma obscura trama
não bato nela, não bato

nem com uma flor

mas se ela chora, desejo-me em flama


Hoje o inimigo veio,

veio me espreitar

Armou tocaia lá

na curva do rio
Trouxe um porrete, um porrete a "mode" me quebrar
mas eu não quebro não, porque sou macio, viu?!"


ps. "vai passar" esse zumzumzum por cousa da mulher sem orifício. Af! rs.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Até qualquer dia

Estou indo, mas vou deixar a chave naquele esconderijo que combinamos, tá bom? Você pode entrar quando quiser, e pode ficar bastante a vontade. A casa é tua. Na verdade, a casa só existe por tua causa. E sendo tua,  podes fazer o uso que bem entender: festas, abrigo, orgias ou oração. Só não te esqueças de bater a porta quando sair, e deixe a chave sempre no mesmo lugar, para o caso de um dia eu querer voltar. Sim, a gente sempre pode voltar, sobretudo quando a gente foi feliz em um lugar. E eu fui muito feliz aqui. Parto com as mais doces lembranças e deixo todo o meu afeto.

Carinho,

Isa.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Triste...

Eu sei que, não sendo mãe, jamais entenderei plenamente tuas lágrimas na perda de teu filho.
Eu sei que, mesmo sendo professora, não era eu quem estava naquela escola, naquela sala, com aquelas crianças.
Eu sei que, embora eu já tenha tido a tua idade, jamais conhecerei a dor de perder amigos na adolescência.
Eu sei que tudo que eu vi, não foi nada diante do horror pelo qual tu passaste.
Eu sei que as minhas lágrimas estão longe de arder como as tuas.
Eu sei que tua dor é só tua e, portanto, ninguém mais neste mundo pode senti-la da mesma forma.
Mas saiba que eu também chorei, e ainda choro.
Chorei porque tudo pode acontecer, aí ou aqui.
Porque estamos todos desprotegidos da maldade humana.
Porque somos humanos.
Chorei porque querem nos vender essa tragédia como um crime americano, mas este crime é brasileiríssimo; todos os dias alunos e funcionários são agredidos.
Chorei porque não aguento mais tantas teorias que não dão conta de nada.
E não aguento mais a mídia fazendo, da tragédia, espetáculo.
Chorei porque sei que, quando o espetáculo acabar, tudo será esquecido, como se esquece tudo neste país.
Chorei porque é a única coisa que posso fazer agora.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cuida de mim (O Teatro Mágico)

Pra falar verdade, às vezes minto 
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer às vezes que às vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
"Tanto faz" não satisfaz o que preciso
Além do mais quem busca nunca é indeciso


Eu busquei quem sou
Você pra mim mostrou
Que eu não sou sozinha nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo... Enquanto fujo...





Basta as penas que eu mesmo sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim
Sou da cor do tom, sabor e som que quiser ouvir
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir
Quero mais, quero a paz que me prometeu
Volto atrás se voltar atrás assim como eu.

Busquei quem sou
Você pra mim mostrou
Que eu não estou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo... Enquanto fujo...




composição : Fernando Anitelli

domingo, 3 de abril de 2011

Domingo, este.

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo


A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.


DRUMMOND, Carlos. In: Alguma poesia.